Portugal não está na vanguarda das renováveis
Apesar das narrativas do “lobbies das renováveis”, o país tem vindo a perder terreno.
José Gomes Ferreira tem uma relação complicada com distinguir a verdade da paródia. O diretor-adjunto de informação da SIC, à altura do pedido de demissão de António Costa em 2023, afirmava em direto que o primeiro-ministro cessante havia publicado no X/Twitter «Falei hoje com o presidente da República, tendo-lhe pedido a demissão. Pedi-lhe a demissão do Procurador Geral por esta perseguição permanente ao Partido Socialista, garantindo que sou tão inocente como José Sócrates». Ao contrário do que Gomes Ferreira achava, Costa não havia transbordado para outro tipo de linguagem; a publicação citada provinha de uma conta paródia. Quando foi corrigido pelos colegas de painel, Gomes Ferreira não reconheceu o seu erro, preferindo falar de «especulação». As duas partes deste episódio sintetizam uma constante no comentário do Diretor-adjunto de informação da SIC: a relação complicada com os factos e a incapacidade de autocrítica.
Um dos temas favoritos de Gomes Ferreira, e que o levou à fama durante os anos da Troika, é decifrar quem são os «discretos e sombrios grandes mentirosos do Regime». Na opinião do «homem com um programa de governo», a necessidade de grandes investimentos como a alta velocidade ferroviária e o novo aeroporto fazem parte das «mentiras de regime». Como a «terceira grande mentira do Regime» está a «necessidade absoluta de construir urgentemente mais centrais solares e fotovoltaicas intermitentes em Portugal».
Desde há longos anos, o Diretor-adjunto de informação da SIC conduz em horário nobre uma cruzada contra os investimentos em fontes de energia renovável como o solar fotovoltaico e as eólicas. Como pedra basilar do seu argumento cita constantemente que «a potência instalada do sistema eletroprodutor era de 24.654 MW» e assim lança a questão de que tendo em conta que o pico máximo de consumo instantâneo «é de menos de 10.000 MW, porque é que o país precisa de aumentar ainda mais a sua capacidade instalada?». Como peça da conspiração, esconde-se que as famílias portuguesas pagam «um dos preços mais elevados da Europa, por causa da absurda arquitetura do sistema elétrico nacional». Estes investimentos representam uma «loucura coletiva» que não é parada devido a «interesses velados». Assim, neste setor temos a «verdadeira corrupção do Regime». Nem mesmo os recentes choques energéticos, em que a Península Ibérica saiu menos afetada em termos de preço da eletricidade, fizeram Gomes Ferreira mudar o seu discurso.

Os factos alternativos de Gomes Ferreira são facilmente desmentidos (por exemplo aqui, aqui e aqui). Ainda assim, importa colocar à prova a ideia de uma conspiração por parte das elites nacionais em nome de instalar energias renováveis às custas dos bolsos dos portugueses. No mundo desenhado pelo Diretor-adjunto de informação da SIC, Portugal é um país dominado pelos promotores de painéis fotovoltaicos e turbinas eólicas. O país deveria com isso testemunhar níveis de produção de energia renovável estratosféricos - uma réplica daquilo que o país vive com as autoestradas, que se concretizaram na segunda maior rede por habitante da União Europeia.
Crucialmente, Gomes Ferreira não estará sozinho em acreditar na paródia de um Portugal líder inegável na produção de energia renovável. Como compagnons de route do percurso anti-renováveis, o Diretor-adjunto de informação da SIC estão figuras como Luís Mira Amaral. No final do ano passado, a jornalista do Público Aline Flor sem partilhar o cepticismo de Gomes Ferreira, escrevia sobre a «liderança de Portugal nas renováveis» que contrasta «a paralisia na economia circular». Esta ideia de pujança da energia renovável, compartilhada tanto por apoiantes como detratores, deve ser posta à prova ao comparar com outros países europeus.
O FALSO PÓDIO
Como o primeiro fator que poderia denunciar a captura da grelha elétrica nacional por parte das energias renováveis, estaria a grande fração de eletricidade produzida por estas fontes em Portugal. Comparando face aos pares europeus, Portugal tem de facto uma grande porção de energia produzida por fontes renováveis. Com aumentos desde o início da década passada, a porção tem assentado em valores acima dos 80%, uma cifra bem acima da média europeia (48%) e de quase todos os parceiros europeus.

Contudo, o gráfico acima também mostra que o que aconteceu foi um regresso a níveis comparáveis com os da década de 1980. Esta estranheza explica-se pelo aumento do consumo de eletricidade ao longo das décadas. O crescimento económico a partir dessa década criou uma maior procura por eletricidade em que as fontes fósseis foram ganhando peso no sistema. Esta dinâmica realça o engodo do foco excessivo no peso das renováveis no sistema elétrico, em especial quando se projeta a necessidade de electrificação de vários consumos no futuro (p.ex: automóvel). Dessa forma, a produção elétrica por habitante comparada com os parceiros europeus oferece, em simultâneo, pistas sobre o progresso da descarbonização da rede elétrica e o seu potencial num mundo cada vez mais eletrizado.
Na produção elétrica renovável por habitante, a fotografia de um país em sobrecarga, a liderar o continente - dissipa-se por completo. Ao medir a produção efetiva de eletricidade, sem considerar proporções, o país perde o lugar no pódio das renováveis, passando para a quinta posição, com os Países Baixos a ameaçar uma ultrapassagem.
Apesar de o país (ainda) produzir mais eletricidade renovável por habitante do que a média comunitária, a última década tem sido pautada por uma perda da vantagem relativa. Isto pode ser visto no gráfico abaixo, com o valor absoluto de produção renovável do país face à média europeia.

Entre 2010 e 2014 Portugal teve o pico de excedente de eletricidade renovável face à UE, 52%. Desde então, a cifra tem vindo a cair, posicionando-se em valores abaixo de 25%. Ou seja, a expansão renovável tem sido mais lenta que no resto da UE. Seguindo a lógica conspiratória de Gomes Ferreira, se Portugal vive a «loucura coletiva» dos «interesses velados», então o Velho Continente deixou-se contagiar pela tragédia portuguesa. Para entender a dinâmica da última década há que fazer um rápido apanhado de cada fonte renovável.
A ROBUSTEZ HIDRICA
A energia hídrica segue duas tendências no Velho Continente que evidenciam os limites do seu potencial de crescimento. Primeiro, os países têm diferentes dotações naturais. Existe uma clara hierarquia das potencialidades hídricas: os países escandinavos e alpinos produzem múltiplos daquilo que Portugal gera, que por si já está muito acima da média comunitária.
Em segundo lugar, a energia proveniente das barragens advém de um legado mais antigo, atingindo a maturidade tecnológica há várias décadas. Apesar de flutuações anuais, afetadas pela abundância da precipitação, as últimas décadas têm sido de estabilização da produção, tanto em Portugal como no continente europeu. No caso português, a capacidade representa, em grande parte, investimentos que remontam ao Estado Novo, não uma mania recente que tomou conta do país.

Enquanto se discute a possibilidade da construção de novas barragens no país, como a de Girabolhos, a estagnação transversal na Europa mostra os claros limites à expansão desta fonte de eletricidade. O hídrico não é desta forma o motivo pelo qual Portugal perde a vantagem nas renováveis. Os mais recentes investimentos, como o complexo de três barragens do Tâmega - integradas noutras fontes renováveis e apelidada de gigabateria -, mostram que o potencial do hídrico passa por criar sinergias com outras fontes renováveis. É aí que rasga o quadro brilhante que se tem desenhado.
DA VANGUARDA À BANALIDADE: A DÉCADA PERDIDA DO EÓLICO
A energia produzida a partir do vento é especialmente sitiada devido aos tema das “rendas excessivas”, com as quais beneficiariam de generosas benesses do Estado. Como medalha recebida por José Gomes Ferreira devido à moderação de uma transmissão do Negócios da Semana, a Entidade Reguladora para a Comunicação Social chegou a forçar a SIC a um direito de resposta solicitado pelo ministério do Ambiente conduzido então por João Matos Fernandes. Estavam em discussão os concursos públicos para parques eólicos. Como as deturpações denunciam, é difícil encontrar um país capturado por este setor.
A tal ideia de Portugal como a vanguarda das energias renováveis deve-se em grande medida à aposta no eólico na viragem do milénio, antes da maioria dos países. Em 2008, Portugal ultrapassa a Irlanda e passa a fazer parte do pódio europeu da geração de eletricidade (por habitante), ao lado da Dinamarca e Espanha. A capacidade de gerar este tipo de energia continuou a aumentar num ritmo impressionante até 2013, ultrapassando Espanha. Desde então, o crescimento eólico estancou e a vantagem foi-se perdendo.
Primeiro, logo em 2015, a Irlanda e a Suécia passam Portugal. Após uma década de estagnação, o país passa para a oitava posição na UE. Os países que hoje produzem mais eletricidade eólica que Portugal (e Espanha) localizam-se em regiões do norte da Europa com mais vento, favorecidas pelo mar do Norte e o mar Báltico. Apesar de esses países terem partido com um atraso, foram capazes de capitalizar a sua vantagem natural - muitas vezes à boleia do choque energético que tornou os projetos mais atrativos. A perda de vantagem de Portugal na Europa não se deu apenas perante àqueles com melhores condições naturais. Países inseridos em zonas menos ventosas, como a Grécia, a Croácia e a França têm conseguido convergir gradualmente com a Península Ibérica. Os níveis de geração eólica portuguesa, extraordinários há uma década, vão-se tornando cada vez mais numa banalidade.

Os números também mostram que o país não vive um delírio despesista que corre atrás de lucrativas rendas excessivas. A estagnação eólica a partir de 2013 em Portugal e Espanha não pode ser dissociada da crise de dívidas soberanas e da austeridade, com investimentos inibidos pelo aumento dos custos de financiamento. Projetos a arrancar neste momento, como o parque eólico do Tâmega (o maior do país), mostram algum atraso ainda por recuperar. Ainda assim, muitos dos lugares mais vantajosos para explorar a energia do vento foram dos primeiros a ser utilizados. Se Portugal gera menos eletricidade hídrica e eólica do que os países do norte da Europa, seria de esperar uma compensação com o clima soalheiro. Ao contrário de outra percepção geral, isso não está a acontecer.
O SURPREENDENTE DÉFICE SOLAR
Portugal ser um dos países da Europa com mais horas de sol é um dos maiores clichés do discurso público. Este facto é tanto usado para explicar a promoção do turismo como estratégia nacional, como para salientar as potencialidades da energia solar fotovoltaica. Seguindo esta lógica, pode facilmente intuir-se que Portugal esteja na liderança da instalação de painéis fotovoltaicos e se posicione como uma das principais potências solares do velho continente, ou mesmo do mundo. Infelizmente, a realidade não é tão soalheira.
Com a estagnação do hídrico e eólico, o solar fotovoltaico tem, de facto, assumido o protagonismo nos últimos anos. No entanto, a comparação com outros países fragiliza a ideia de um país na linha da frente. A dotação natural do país por si só não se traduz nos dados. A produção fotovoltaica em Portugal está em linha com a média da União Europeia e muito atrás da dianteira ocupada por Espanha e Grécia, países com climas semelhantes. No sul da Europa, Portugal apenas supera a Itália, por uma curta margem. Fica por responder no tempo de antena de Gomes Ferreira o que se podia dizer sobre os Países Baixos. Esse país, mais conhecido pelos seus céus nublados do que pelo turismo balnear, gera praticamente o dobro da energia solar por habitante que Portugal. A desvantagem para com países pouco soalheiros não se fica por aí - existem outros cinco países do centro e norte da Europa com maior produção solar por residente do que Portugal.
Descrição: Ao contrário de muita da percepção, Portugal tem mostrado um atraso na energia solar. Fonte: Our World in Data.
O fator conjuntural mais óbvio para justificar este atraso solar face a países como os Países Baixos seria a assimetria geográfica do choque dos preços da energia resultante da guerra na Ucrânia. A falta de acesso a gás russo, levou a um aumento dos preços, sentidos com mais intensidade no centro da Europa do que na Península Ibérica. O gás, ao contaminar o preço da eletricidade, poderia ter tornado a instalação de energia solar especialmente lucrativa nessas regiões. Assim, seguindo esta lógica, as reduzidas horas de sol face a Portugal e Espanha seriam compensadas pela vontade de baixar drasticamente o consumo de gás. Seria assim expectável que as diferenças entre Portugal e vários países centro da Europa fossem reforçadas pelo mais recente choque energético.
Tal não é o caso. A escalada do preço do gás, combinada com a contínua redução dos preços dos painéis fotovoltaicos, levou de facto a uma aceleração na geração solar nos estados-membros da UE - com a geração solar a mais do que duplicar em apenas três anos. Sendo verdade que alguns países - como a Hungria, Áustria e os Países Baixos - reforçaram a instalação do solar a um ritmo impressionante, afastando-se de Portugal, essa não foi uma tendência generalizada no continente. Nesses anos, mesmo vivendo menor inflação na eletricidade, Portugal recuperou o “atraso solar” que tinha face à média europeia e recuperou algum terreno face a Espanha e Grécia.
Como a figura abaixo mostra, praticamente todos os países da União Europeia com maior geração de energia solar que Portugal em 2025 já tinham esse estatuto anteriormente ao choque de preços de 2022. Aliás, nesse período, em parte com projetos que antecediam a crise energética, Portugal ultrapassou vários países europeus em termos de geração solar.

Novamente, o atraso solar significativo de Portugal tem até muito recentemente um enquadramento que remete ao início do século. Depois de um falso arranque em 2006, com o lançamento da maior central fotovoltaica da Europa, quando a tecnologia ainda era incipiente, o país ficou dormente em até 2018. Tal como as eólicas no mesmo período, o quadro macroeconómico e orçamental foram certamente fatores decisivos.
OS FÓSSEIS EXISTENTES
Na contraparte das renováveis, surge a eletricidade produzida pelos combustíveis fósseis. Aí Portugal também segue a tendência Europeia. Com o abandono do carvão para a produção de eletricidade em 2021, Portugal tem hoje o gás como o grande combustível fóssil utilizado para gerar eletricidade.


Sumariamente, Portugal mostra um crescimento da produção de energia através de fontes renováveis. Deve ser afastada a hipótese de um crescimento violento e atípico para padrões europeus. Não há sintomas de um país capturado por uma conspiração que busque instalar capacidade em excesso feita em nome de «negócios para os amigos». O grande avanço português reside no proveito do legado da energia hídrica já instalada. Como empurrão extra estão os avanços nas energias eólicas na segunda metade da primeira década deste século e um crescimento do solar no começo da década presente. Apesar de crescimentos robustos, Portugal não é uma excepção Europeia.
Hoje, os quase 20% de eletricidade gerada por fósseis no país têm um papel complementar às renováveis. A flexibilidade das centrais a gás (a par das importações do nuclear espanhol) permite ajustar a produção para períodos em que não há sol, vento ou água suficiente. Pelo meio surgem os períodos em que os combustíveis fósseis são relegados a uma produção marginal na rede elétrica nacional. Enquanto isso poderia ser um sério constrangimento à criação de um sistema persistentemente alimentado por renováveis, as recentes inovações na área do armazenamento desbloqueiam opções. Nesse tipo de investimentos, Portugal combina um forte legado com um futuro pouco animador.
STOCKS DE SOL E VENTO
Críticas às renováveis devido à sua intermitência é um hábito comum. Era o que fazia Rita Matias no debate parlamentar sobre o apagão de 28 de abril do ano passado. A aposta da deputada do Chega residia na crítica às «políticas que diabolizam o carvão». A ideia de que as renováveis apenas estão disponíveis quando o sol brilha e o vento sopra tem um fundo de verdade, mas a crítica perde força à medida que se desenrolam desenvolvimentos na produção de baterias. Com sucessivos anos de progresso, o custo de infraestruturas que armazenam energia durante horas ou dias veio a cair a pique.
Descrição: O facto dos argumento da intermitência das renováveis manter-se vivo independentemente do desenvolvimento de tecnologias de armazenamento mostra que, a maioria das vezes, esse argumento falha o alvo. Fonte
Enquanto esses progressos não se traduzem nos investimentos em estações de energia, o papel de bateria tem sido assegurado por uma tecnologia mais antiga. À data actual, a esmagadora capacidade de armazenamento na Europa diz respeito a barragens com capacidade reversível. Ou seja, infraestruturas hídricas não só com a capacidade de produzir energia, mas também de funcionar em sentido inverso - por exemplo, usando excessos de energia solar e eólica em períodos em que a produção supera o consumo para bombear a água de volta para a barragem, permitindo produção hidroelétrica mais tarde. Podendo produzir água sem estar limitadas às doações da chuva, essas barragens são uma forma de bateria.
Tal como nas barragens em geral, parte da capacidade portuguesa advém da herança de infraestruturas já construídas. Como destaque mais recente, está o complexo de três barragens do Tâmega, com a última inauguração em 2024, para ainda ser complementado com o parque eólico. O problema da intermitência é então atenuado. Estas infraestruturas fazem Portugal partir de uma posição vantajosa em termos de capacidade atual. Ainda assim, o passado recente tem mostrado que o país não tem conseguido tirar partido das suas vantagens iniciais; infelizmente, o armazenamento não está ser a excepção.
Com os grandes investimentos em baterias ainda por acontecer, mais do que o histórico, devemos olhar para os projetos em linha. O gráfico abaixo mostra que Portugal conta com uma forte capacidade instalada de armazenamento, o tal legado da capacidade hídrica. No que se projeta para o futuro, onde as cada vez mais baratas novas tecnologias assumem o protagonismo, o país fica para trás. Se somos dominados pelos “lobbies das renováveis”, estes não têm estado atentos ao progresso tecnológico.
Descrição: Portugal traz um forte avanço no armazenamento, fruto do legado da energia hídrica, mas com as novas tecnologias a situação pode deteriorar-se. Fonte: Dados de Armazenamento em https://ses.jrc.ec.europa.eu/storage-inventory e Eurostat para população (níveis de 2023)
A LONGA E LENTA JORNADA DE CONVERGÊNCIA
Ainda há um derradeiro dado que aponta para a fraqueza da capacidade elétrica em Portugal. O sucesso da descarbonização (em termos percentuais) da rede elétrica nacional esconde os níveis modestos de eletricidade (em termos absolutos) gerados em Portugal. Mesmo quando são abrangidas fontes não fósseis (que inclui o nuclear de vários países), a geração de eletricidade por habitante do país tem pouco de impressionante. A produção de eletricidade não-fóssil é comparável à da Bulgária e da Hungria, e está muito longe das grandes potências elétricas do mundo desenvolvido.

Portugal produz, per capita, metade da eletricidade não fóssil de França, 40% menos do que a Áustria e a Nova Zelândia; e apenas uma pequena fracção dos campeões não fósseis mundiais como o Canadá, a Suécia, a Noruega e a Islândia. O “grande” crescimento das renováveis fez com que Portugal saísse de uma posição muito desfavorável para uma ligeiramente melhor (26º para 20º num universo de 44 países), compensando grande parte do défice que tinha para com o centro da Europa resultante do legado da energia nuclear.
No mesmo período, países como a Dinamarca e os Países Baixos deram saltos realmente impressionantes, passando de níveis de produção negligenciáveis para cifras acima de Portugal. Em grande medida, a evolução faz lembrar a evolução em muitos indicadores sócio-económicos, onde Portugal se situa longe do topo.

Em parte, os níveis de produção elétrica dependem do consumo, que é resultado de um equilíbrio da sociedade portuguesa - rendimentos mais baixos e menos indústria. Mesmo se Portugal não tivesse a capacidade ou o interesse de atrair novas indústrias, os dois choques energéticos em menos de uma década mostram que a jornada elétrica está bem longe de estar concluída. Nestes choques, Portugal tem sido mais poupado no setor elétrico, mas o mesmo não pode ser dito noutras áreas, como o transporte individual, evidenciando a tremenda dependência fóssil do país.
Se alargarmos o objetivo da modernização e do desenvolvimento para trás, deixando as atividades económicas de baixo valor, a criação de excedentes energéticos domésticos é o passo necessário. Não coincidentemente, os países com uma geração de eletricidade não fóssil mais alta do que Portugal são todos muito mais desenvolvidos e com um histórico industrial pujante, para o qual os excedentes energéticos domésticos foram fundamentais. Crucialmente, devemos olhar não apenas para quem se encontra na frente de Portugal mas para quem ascende do outro lado da Euroásia.
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Talvez Gomes Ferreira ainda queira, quase 20 anos depois, encontrar ou insinuar alguma ligação entre o alegado "lóbi" das renováveis e José Sócrates, alguém que defendia, e bem, a aposta em fontes de energia renováveis, sendo que foi no seu período de governação que se deram os maiores avanços nessa área.
Quando vejo José Gomes Ferreira a comentar, ponho sempre uma pala de pirata. Vejo apenas com um olho. Desconfio do estilo. Apresenta a notícia como se tivesse descoberto uma grande conspiração, que depois acompanha com números para dar um significado à tese. Depois aquele tom de voz, para mostrar que é dramático e trágico. Aliás, o estilo é também usado por outros comentadores no mesmo canal. A ideia, repetida vezes sem conta, de que Portugal vive uma “loucura colectiva” de investimentos exagerados em energias renováveis ou que é uma potência europeia neste domínio, cai por terra quando se olha para os dados com calma. A realidade é bem menos extraordinária e muito mais moderada.
Portugal tem sido apresentado como um exemplo europeu nas renováveis, mas grande parte dessa imagem assenta em percentagens que escondem o essencial. O país tem uma elevada fatia de electricidade renovável porque herdou um enorme parque hídrico construído entre os anos 50 e 90. Quando se analisa a produção renovável por habitante — a métrica que realmente permite comparar países — Portugal deixa de ser líder e passa para o meio da tabela. A vantagem que tinha há uma década foi-se evaporando, porque outros países avançaram muito mais depressa.
A energia eólica é o exemplo mais claro desta ilusão. Portugal foi pioneiro e chegou ao pódio europeu em 2008, mas a partir de 2013 o crescimento estagnou. A crise económica, a austeridade e o aumento dos custos de financiamento congelaram novos projectos. Enquanto isso, países do norte da Europa — e até países com menos vento, como Grécia ou Croácia — ultrapassaram Portugal. O que antes era excepcional tornou-se banal.
No solar, o contraste é ainda mais gritante. Portugal, um dos países mais soalheiros da Europa, produz apenas o equivalente à média da União Europeia. Está muito atrás de Espanha, Grécia e até dos Países Baixos, que têm muito menos sol, mas produzem quase o dobro por habitante. Entre 2006 e 2018, Portugal praticamente não investiu em solar, perdendo mais de uma década. Só recentemente começou a recuperar terreno, mas sem nada que o coloque na linha da frente europeia.
Com o fim do carvão em 2021, o gás natural tornou-se o único combustível fóssil relevante, funcionando como apoio flexível às renováveis. Os fósseis representam cerca de 20% da electricidade, entrando apenas quando falta sol, vento ou água. Portugal tem também uma vantagem histórica no armazenamento graças às barragens reversíveis, que funcionam como baterias naturais. Mas mesmo aí está a ficar para trás nas novas tecnologias de armazenamento, enquanto outros países aceleram.
O verdadeiro problema é que Portugal produz pouca electricidade total por habitante. Mesmo com percentagens elevadas de renováveis, o país está ao nível de Bulgária e Hungria e muito abaixo de França, Áustria, Suécia ou Canadá. Uma economia menos industrializada consome menos electricidade e gera menos excedentes energéticos — e isso limita o desenvolvimento. A transição energética portuguesa tem sido mais uma jornada lenta de convergência do que uma história de liderança.
Enquanto Portugal tenta consolidar o seu modelo renovável, a França segue uma estratégia completamente diferente. Com 56 reactores nucleares e mais de 60% da sua electricidade proveniente do nuclear, é o maior exportador líquido de electricidade da Europa. E não esconde o seu objectivo: garantir que o nuclear seja reconhecido pela União Europeia como energia “limpa” e elegível para financiamento verde. A batalha pela taxonomia europeia — o sistema que define quais os investimentos considerados sustentáveis — tem sido central na diplomacia francesa. Se o nuclear for classificado como “verde”, passa a ter acesso a fundos europeus e a financiamento privado mais barato, reforçando a posição francesa como fornecedora de electricidade para outros países.
Esta estratégia contrasta com a da Alemanha, que abandonou o nuclear e aposta exclusivamente nas renováveis. O conflito entre estes dois modelos energéticos — o nuclear centralizado francês e as renováveis descentralizadas alemãs — tem moldado a política energética europeia. E Portugal, com o seu percurso irregular e a sua produção modesta, acaba por ser mais um observador do que um protagonista nesta disputa.
No fim, o panorama é claro: Portugal não é a potência renovável que alguns comentadores dramatizam, nem está capturado por uma conspiração de “interesses velados”. É um país que beneficiou de um legado hídrico antigo, teve um arranque forte no eólico, atrasou-se no solar e hoje segue uma trajectória de convergência lenta. Já a França, com o seu poder nuclear, tenta moldar as regras europeias para reforçar a sua posição. Dois modelos diferentes, duas estratégias distintas e uma Europa que continua a debater qual será o seu futuro energético.