Discussão sobre este post

Avatar de User
Avatar de Vítor Hugo Vieira

Talvez Gomes Ferreira ainda queira, quase 20 anos depois, encontrar ou insinuar alguma ligação entre o alegado "lóbi" das renováveis e José Sócrates, alguém que defendia, e bem, a aposta em fontes de energia renováveis, sendo que foi no seu período de governação que se deram os maiores avanços nessa área.

Avatar de Conversas à volta da mesa

Quando vejo José Gomes Ferreira a comentar, ponho sempre uma pala de pirata. Vejo apenas com um olho. Desconfio do estilo. Apresenta a notícia como se tivesse descoberto uma grande conspiração, que depois acompanha com números para dar um significado à tese. Depois aquele tom de voz, para mostrar que é dramático e trágico. Aliás, o estilo é também usado por outros comentadores no mesmo canal. A ideia, repetida vezes sem conta, de que Portugal vive uma “loucura colectiva” de investimentos exagerados em energias renováveis ou que é uma potência europeia neste domínio, cai por terra quando se olha para os dados com calma. A realidade é bem menos extraordinária e muito mais moderada.

Portugal tem sido apresentado como um exemplo europeu nas renováveis, mas grande parte dessa imagem assenta em percentagens que escondem o essencial. O país tem uma elevada fatia de electricidade renovável porque herdou um enorme parque hídrico construído entre os anos 50 e 90. Quando se analisa a produção renovável por habitante — a métrica que realmente permite comparar países — Portugal deixa de ser líder e passa para o meio da tabela. A vantagem que tinha há uma década foi-se evaporando, porque outros países avançaram muito mais depressa.

A energia eólica é o exemplo mais claro desta ilusão. Portugal foi pioneiro e chegou ao pódio europeu em 2008, mas a partir de 2013 o crescimento estagnou. A crise económica, a austeridade e o aumento dos custos de financiamento congelaram novos projectos. Enquanto isso, países do norte da Europa — e até países com menos vento, como Grécia ou Croácia — ultrapassaram Portugal. O que antes era excepcional tornou-se banal.

No solar, o contraste é ainda mais gritante. Portugal, um dos países mais soalheiros da Europa, produz apenas o equivalente à média da União Europeia. Está muito atrás de Espanha, Grécia e até dos Países Baixos, que têm muito menos sol, mas produzem quase o dobro por habitante. Entre 2006 e 2018, Portugal praticamente não investiu em solar, perdendo mais de uma década. Só recentemente começou a recuperar terreno, mas sem nada que o coloque na linha da frente europeia.

Com o fim do carvão em 2021, o gás natural tornou-se o único combustível fóssil relevante, funcionando como apoio flexível às renováveis. Os fósseis representam cerca de 20% da electricidade, entrando apenas quando falta sol, vento ou água. Portugal tem também uma vantagem histórica no armazenamento graças às barragens reversíveis, que funcionam como baterias naturais. Mas mesmo aí está a ficar para trás nas novas tecnologias de armazenamento, enquanto outros países aceleram.

O verdadeiro problema é que Portugal produz pouca electricidade total por habitante. Mesmo com percentagens elevadas de renováveis, o país está ao nível de Bulgária e Hungria e muito abaixo de França, Áustria, Suécia ou Canadá. Uma economia menos industrializada consome menos electricidade e gera menos excedentes energéticos — e isso limita o desenvolvimento. A transição energética portuguesa tem sido mais uma jornada lenta de convergência do que uma história de liderança.

Enquanto Portugal tenta consolidar o seu modelo renovável, a França segue uma estratégia completamente diferente. Com 56 reactores nucleares e mais de 60% da sua electricidade proveniente do nuclear, é o maior exportador líquido de electricidade da Europa. E não esconde o seu objectivo: garantir que o nuclear seja reconhecido pela União Europeia como energia “limpa” e elegível para financiamento verde. A batalha pela taxonomia europeia — o sistema que define quais os investimentos considerados sustentáveis — tem sido central na diplomacia francesa. Se o nuclear for classificado como “verde”, passa a ter acesso a fundos europeus e a financiamento privado mais barato, reforçando a posição francesa como fornecedora de electricidade para outros países.

Esta estratégia contrasta com a da Alemanha, que abandonou o nuclear e aposta exclusivamente nas renováveis. O conflito entre estes dois modelos energéticos — o nuclear centralizado francês e as renováveis descentralizadas alemãs — tem moldado a política energética europeia. E Portugal, com o seu percurso irregular e a sua produção modesta, acaba por ser mais um observador do que um protagonista nesta disputa.

No fim, o panorama é claro: Portugal não é a potência renovável que alguns comentadores dramatizam, nem está capturado por uma conspiração de “interesses velados”. É um país que beneficiou de um legado hídrico antigo, teve um arranque forte no eólico, atrasou-se no solar e hoje segue uma trajectória de convergência lenta. Já a França, com o seu poder nuclear, tenta moldar as regras europeias para reforçar a sua posição. Dois modelos diferentes, duas estratégias distintas e uma Europa que continua a debater qual será o seu futuro energético.

Mais um comentário...

Nenhuma publicação

Pronto para mais?