Parte da lista já estava preenchida. O powerbank (carregado) havia sido útil no Apagão de 2025. Os pelos menos três litros de água potável estão garantidos: três garrafões de cinco litros e qualquer coisa estão ao lado do frigorífico, hirtos como soldados, a postos para matar a sede caso a água deixe de correr nas torneiras. Antes de pensar em situações de emergência já havia frutos secos nos armários e bolachas (talvez a mais).
O rádio portátil apareceu como por acaso – mesmo que tenham um ar antiquado, os modelos mais recentes de despertador de cabeceira já vêm preparados para funcionar a pilhas. Os artigos de higiene pessoal estão nos lugares de sempre e as mudas de roupa estão nas gavetas e armários do costume. Pode acusar-se algum despreparo, mas é tudo muito fácil de recolher numa situação de emergência (não se podem assegurar as combinações corretas de cores das roupas mas, em crise, ninguém haverá de notar).
O isqueiro também já fazia parte da casa e tem experiência noutras situações de emergência: quando o fogão a gás teima em não acender, como é suposto. Está previsto este fogão ser substituído por outro, mais amigo do ambiente, mas o isqueiro já conquistou o seu lugar. As velas estão a postos nas suas gavetas, fruto de uma compra impulsiva por outrem no apagão passado – afinal quem iria precisar daquelas velas todas, mesmo perante o colapso da civilização?
E assim começou a busca pelos artigos em falta. A deslocação a uma das grandes superfícies do costume teve como primeiro objetivo a aquisição de caixas de fósforos. Encontrá-las foi fácil, perto de coisas de limpeza de cozinha que já são essenciais (com mais emergência, menos emergência). As pilhas portáteis revelaram-se um desafio mais árduo. Embora, em tempos tenham sido essenciais para o dia a dia, residem nas memórias os dias em que as tínhamos de colocar em aparelhos como o Game Boy. É possível imaginar como seria a vida se, a cada carregamento de telemóvel, fosse necessário substituir dois pequenos cilindros metálicos?
A resistência a pedir ajuda a um funcionário quebra quando é necessário encontrar lanternas portáteis. Não estavam longe das pilhas, mas cuidado com subestimar a capacidade de deixar escapar o que está mesmo debaixo dos nossos narizes.
Na parafarmácia não há em stock um daqueles kits de primeiros socorros com os itens agregados. Para já, terá de ficar para outra incursão; quem sabe, por sorte, fique mais barato comprar os artigos em separado?
O numerário, útil quando as máquinas de multibanco e o MB Way deixam de funcionar (mas o mundo tem de continuar a girar), vem de uma máquina que para já é alimentada a eletricidade. O envelope para guardar o valor levantado é resgatado do papelão – “já pensou em vender a sua casa?” era o título do panfleto original que o envelope trazia.
O canivete suíço também fica para uma próxima ida às compras, que se espera ser antes da próxima ocasião que deixará as nossas vidas em suspenso. Esse objeto que se quer nobre, exige mais do que uma grande superfície para o fornecer e merece uma comparação entre lojas.
Nas listas dos kits são sugeridos alguns objectos para passar o tempo, como baralhos de cartas. Fazem-se figas para que os jogos de outras pessoas sejam suficientes e para que, à semelhança do Apagão, a emergência permita socializar. Tal como no Apagão, um livro será suficiente? “Um livro é uma boa ideia, não precisa de luz” – sugeriu um estranho, no dia 28 de abril do ano passado, com o tom exclamação de quem não tinha considerado tal solução. Uma nova emergência poderá permitir dar uso a livros acumulados, oferecidos noutras ocasiões, mas nunca lidos. No outro extremo, podemos especular sobre pilhagens que chegam às livrarias.
O PORTUGAL PÓS-APAGÃO
Narrou-se acima a recolha dos objetos recomendados para fazer parte do “Kit-Emergência”. Em tempos cada vez mais incertos, já antes do Apagão Ibério de abril do ano passado, este conjunto de objectos começou a ser classificado como essencial em qualquer lar, pronto a utilizar em outra emergência.

Nesta newsletter tentamos interpretar o mundo à nossa volta em profunda e constante transformação. Neste caldeirão de possíveis emergências estão os conflitos militares, os fenómenos extremos derivados de alterações climáticas, as transformações na produção que advêm da transição energética e das novas tecnologias computacionais. A quebra de consensos políticos com várias décadas tornou-se a norma. Uma tendência que, como tantas outras, chegou tarde a Portugal, mas com estrondo. As tempestades que fustigaram em especial a Região de Leiria no último inverno, vistas à distância e com preocupação pelos autores da República dos Pijamas, confirmam que o mundo de hoje não é o mesmo de há uma década. O que estará para vir daqui a dez anos poderá surpreender-nos ainda mais. Os recentes problemas com o abastecimento de água em Almada alimentam essas preocupações.
Assim, tomou-se óbvio para esta República que não basta pensar nestas situações em abstracto, mas que cada vez mais é crucial precavermo-nos para os eventos que temos em mente quando escrevemos. Não prometemos continuar a fazer as nossas publicações chegar às vossas caixas de email em estado de catástrofe, mas equipados aumentamos as chances disso.
Entretanto, anunciamos os nossos planos para o verão. Como de costume, fazemos uma pausa nas nossas publicações até à rentrée, em meados de Setembro. Podes também ter notado que temos apostado em publicações mais intervaladas, em parte do reflexo dos textos mais longos que temos lançado.
Entretanto, aproveitamos para recomendar alguns textos antigos nossos que julgamos estarem relacionados com a possibilidade de alguma crise poder estar ao virar da esquina. Apesar de a maioria já acumular mais de um ano, acreditamos que o tempo tem vindo a dar razão aos argumentos que neles apresentamos.
RESTO DO ANO
Num mundo em constante mudança, em que não sabemos se seremos afetados por algum evento extremo ou uma nova guerra, é difícil prever o que iremos fazer até ao final do ano. Ainda assim, podemos partilhar algumas das linhas orientadoras que temos discutido internamente.
Certamente continuaremos a aprofundar dois temas altamente interligados, aos quais temos dedicado bastante energia este ano: a eletrificação através das energias renováveis e o investimento em transportes públicos. Acreditamos que qualquer projeto progressista, que tenha a ambição de reforçar a soberania de uma pequena economia num canto da Zona Euro, tem de ter uma proposta política clara nestas áreas, proposta essa que reconheça as tensões inerentes. Sendo a política (também) a mediação destas tensões, não basta o refúgio em “democratismos” baseados nos agentes mais vocais das comunidades locais, e em pequenos reparos a uma agenda definida por outros, onde João Galamba se tornou a referência.
Com o arrancar das obras do Start Campus em Sines e as preocupações manifestadas pelo autarca local, continuaremos a estudar a história deste pequeno enclave industrial no litoral alentejano e a refletir sobre o papel que pode ter num projeto desenvolvimentista progressista.
A habitação dificilmente sairá das páginas desta República. O peso político dos ministros Miguel Pinto Luz e Manuel Castro Almeida sugere que o governo irá continuar a lançar novos pacotes nesta área, como sugerido nos anúncios relativos às leis do arrendamento. Mesmo que esta previsão não se concretize, e sendo um dos principais focos das nossas leituras, contamos fazer chegar à tua caixa de email uma análise de uma obra recente em que a gestão dos solos é colocada no centro do desenvolvimento político-económico.
Planeamos também o regresso às entrevistas, com vozes nacionais ou estrangeiras, que nos ajudem a entender como Portugal pode navegar o presente.
Boas leituras e até setembro.
Pensar, escrever, editar e publicar exige tempo. Nós, os Pijamas, fazemo-lo à margem das nossas rotinas laborais, numa lógica de participação no espaço público - sobretudo, para desconstruir a narrativa do economês dominante e refletir sobre alternativas para a nossa vida coletiva. Se gostaste do que leste, subscreve e partilha a nossa newsletter e os nossos artigos. Esse é o maior apoio que nos podes dar.












