A vitória de Seguro é um castelo de areia num sistema em transformação
Como várias tradições do pós 25 de Abril, um Presidente de dois mandatos pode estar em causa
Num comentário partilhado pela conta Intralistas - Análise Eleitoral, a menos de dez dias da primeira volta das presidenciais, era feito o convite para recuar ao paradigma político de há seis anos, a 2020. Para os autores «Tudo nesta imagem é estapafúrdio. Um deputado único residual em primeiro e outro em terceiro. Um político totalmente queimado e acabado para a política em segundo. Um quarto lugar de um sr. tal do exército que ninguém sabe o nome. Um 5[°] lugar que não se percebe como de tão fraco de um sr. Televisão predestinado a ser presidente. Uma Catarina Martins em plena pujança da esquerda no pelotão dos últimos. Um artista extravagante a lutar pelo sexto lugar.»

Em tom de concordância, o Cientista Político, João Cancela, acrescentava que a política portuguesa, que anteriormente era «um marasmo», passava por agora uma década «alucinante».
Algumas semanas depois, António José Seguro, vencia as eleições presidenciais. A larga margem à segunda volta oferece uma falsa aparência de normalidade. Apesar da vitória de uma figura do centrão clássico, vários fatores mostram um sistema político em busca de um novo equilíbrio.
O presidente cessante, nos seus anos enquanto comentador, tinha como imagem de marca enumerar os fatores que explicavam um problema. Nesta nossa análise, começamos pelo próprio.
O PIOR PRESIDENTE
Marcelo Rebelo de Sousa, mesmo pouco mencionado durante o período eleitoral, é uma peça chave para se entender os resultados eleitorais. Por mais que se possa enquadrar tendências globais, não se deve cometer o erro de analisar esta eleição sem fazer um balanço do Presidente cessante. Como em todas as presidenciais, as forças e as fraquezas dos candidatos são sempre dependentes do Presidente em exercício e de como este é interpretado pelos eleitores.
Rebelo de Sousa continua a ser um político popular e termina o seu mandato com melhor avaliação do que o seu antecessor, Aníbal Cavaco Silva. No entanto, a abrupta queda de popularidade de Rebelo de Sousa nos últimos anos é reflexo de um novo clima político. O Portugal que recuperava da crise dos tempos da Troika já não existe. O clima de estabilidade no qual “o Presidente dos afetos” capitalizava com o seu estilo simpático e pouco institucional (o anti-Cavaco) faz parte do passado.
Os incêndios de Pedrógão Grande foram o pontapé de saída da mudança no ambiente. Posteriormente, o país vivenciou ainda mais incêndios (associados ao furacão Ophelia), uma pandemia, as consequências indiretas de conflitos militares, o apagão ibérico e mais recentemente as cheias e a tempestade Kristin. A sequência de choques alterou o ritmo político e ajuda a explicar o porquê dos resultados eleitorais irrealistas de há meia dúzia de anos atrás.
Neste novo ciclo, de choques e crises permanentes, o estilo de Rebelo de Sousa tinha um prazo de validade. A sua forma de ser não mudou, mas cada vez mais portugueses foram deixando de ter simpatia por ela. A recente série de tempestades de inverno reforçou-o. Exatamente depois de uma chegada pouco dignificante em Leiria, ao lado da então ministra da Administração Interna, Rebelo de Sousa era interpelado pela população. Um popular, que afirmava estar «muito revoltado», acaba a sua intervenção a desejar «um bom resto de mandato». O gesto, que soava a um misto de frustração e desprezo, simbolizava um sentimento mais generalizado. Mais do que gerar uma sensação de controlo pelo Estado, os festivais de afetos improvisados atrapalharam.
Meses antes das eleições presidenciais, André Ventura espalhava a mentira de que Rebelo de Sousa tinha ido a um “festival de hambúrgueres” em Berlim, às custas dos contribuintes. O facto foi rapidamente esclarecido, mas a mentira não soava a um total absurdo - encaixava na caricatura daquilo que foi o mandato do Presidente da República.
Se recuarmos ao primeiro mandato, além das informalidades dentro de fronteiras, o Presidente da República cessante lançou o seu cargo com um conjunto de visitas de Estado de cunho bem pessoal. Uma semana depois de tomar posse, o católico Rebelo de Sousa fazia uma visita de Estado ao Vaticano, onde tinha a oportunidade de conhecer o Papa Francisco. Menos de dois meses depois, noutra visita de Estado, Rebelo de Sousa regressava ao Palácio Presidencial de Moçambique, onde viveu enquanto o seu pai foi governador colonial, Ainda em 2016, aproveitava uma visita de Estado a Cuba para conhecer Fidel Castro, há oito anos afastado do poder devido à doença, que viria a falecer no mês seguinte.
Rebelo de Sousa terminava o seu exercício presidencial da mesma forma que o começou - com uma visita ao Vaticano. O Presidente cessante ausentava-se de um país ainda em choque com a destruição da Tempestade Kristin para conhecer o Papa Leão XIV.
A exaustão com a informalidade de Rebelo de Sousa ajuda a explicar o apelo dos candidatos de 2026. Em entrevista publicada cerca de um mês depois da tempestade Kristin, o Presidente de Leiria criticava a «tentação do parecer» como uma forma de fazer política que muitas pessoas «já não conseguem aturar», em que os políticos aparecem para «fazer um número». Apesar de na mesma peça Gonçalo Lopes referir-se em tom elogio a Rebelo de Sousa, é inegável que o “Presidente das Selfies” teve um papel na normalização do que criticava.
O final de mandato com menor presença política e aparições públicas poderão ter ajudado Rebelo de Sousa a recuperar na popularidade sondada. O pico da impopularidade do presidente dos afetos parece ter coincidido com o surgimento do candidato que se desenhava como o anti-marcelo. Poderá ter sido aí que se lançaram as sementes de que se achava ser uma eleição trivial - hoje, sobra o candidato desilusão.
OS LIMITES DO ANTI-MARCELISMO
Com a segunda volta das eleições em andamento e o país a viver o choque da tempestade Kristin, João Miguel Tavares afirmava que se esta «tivesse desabado sobre o país nas vésperas da primeira volta» na segunda volta «o nome do almirante estaria no boletim de voto». O juízo do colunista do Público parece exagerado, ignorando as fracas prestações de Henrique Gouveia e Melo desde o arranque da campanha. Ainda assim, trazem ao de cima que o homem que saltou para as manchetes ao coordenar o plano de vacinação na Covid-19 brilhava mais quando o mundo representado por Marcelo Rebelo de Sousa se esbatia.
A reviravolta entre a possibilidade de uma vitória à primeira volta ao distante quarto lugar, pode ter estado na realização que ser apenas um anti-Marcelo não bastava para conquistar o coração dos portugueses. Com a memória da vacinação cada vez mais distante e o Presidente cessante menos presente, a campanha do almirante na reserva perdeu força à medida que o dia da eleição se aproximava. A isto se juntou a ausência de um conjunto de apoios estrondosos e a falta de mínimos de clareza ideológica. A candidatura só voltou a ter um ponto alto nos ataques a Luís Marques Mendes, deixando no ar a acusação de «facilitador de negócios».
Foi nesse momento que entrou um elemento que se tornou quase obrigatório na vida política portuguesa. Uma semana depois do debate eleitoral onde ocorreu esse episódio, ficava-se a saber, através da Revista Sábado, que o Ministério Público investigava contratos da Marinha no período de Gouveia e Melo. As intervenções do Ministério Público em período eleitoral, com os meios de comunicação como correia de transmissão, tornaram-se demasiado frequentes e previsíveis. Empregar o termo “conspiração” deixou de ser um exagero especulativo.
Por muito que se desgoste da política baseadas em insinuações e ataques pessoais, estas são uma ilha de decência quando comparadas com a atuação sombra do Ministério Público. Ao contrário do Ministério Público, Gouveia e Melo deu a cara pelos ataques que fez. O debate democrático deu, de forma automática, a possibilidade de resposta e defesa ao seu adversário.

Como o destino pós eleições de Gouveia e Melo, Ana Sá Lopes chegou a afirmar que quarto classificado presidencial estaria a um convite de se tornar ministro da Administração Interna do atual governo. Ainda em campanha, a redatora-principal do Público punha o almirante na reserva na direção do SNS. Mesmo derrotado, Gouveia e Melo aposta mais na sua pessoa do que no futuro do atual governo. Primeiro, não descartou a possibilidade de fundar um partido político. Posteriormente, no rescaldo das tempestades e cheias, pediu a cabeça de Maria Lúcia Amaral, assumindo um papel de Presidente da República sombra.
Deixando debaixo de olho uma eventual fragilidade vinda de São Bento ou Belém, o militar na reserva deixa em aberto a possibilidade de continuar a intervir na vida política. Assim, os olhos do desconhecido que saltou para os holofotes com o plano de vacinação da passada pandemia parecem estar postos em 2031. Para já, esta carreira política falhou ao não concretizar algo mais do que ser o não-Marcelo. No extremo oposto, o candidato que mais se parecia com o Presidente cessante foi o grande derrotado.
A GUERRA CIVIL DAS DIREITAS
O maior desastre eleitoral da noite, os 11% de Luís Marques Mendes têm um reflexo de Marcelo Rebelo de Sousa. Logo à partida, os dois políticos provêm do mesmo partido. A juntar a isso, está a coincidência de candidaturas, antecipadas há muito, lançadas do espaço de comentários dos domingos à noite. Surge ainda a ligação de ambos os candidatos ao Grupo Imprensa (Sic e Expresso). Tudo somado, usando uma análise de José Miguel Júdice, Marques Mendes «tem algumas das qualidades do Marcelo, mas não as tem todas. E as que não tem fazem falta.» A opinião deste histórico do PSD, de maio do ano passado, antecipava as fragilidades da candidatura de Marques Mendes, que foram definitivamente expostas com o duro golpe das dúvidas éticas que se abateram.
No grupo da família Balsemão, historicamente ligada ao PSD, a fragilidade que forçou a venda de parte do gigante mediático meses antes da eleição poderá ter sido um acaso, mas rima com o declínio dos grandes consensos à direita. Enquanto é usual ligar esse fenómeno à ascensão do Chega, estes resultados presidenciais mostram algo mais profundo. Estarão as televisões a perder uma parte significativa do seu poder influenciador num mundo mais digital? Podíamos imaginar Marcelo a ganhar com as mesmas condições em 2016? Devemos assim olhar para outra candidatura de direita, a que Júdice acabaria por apoiar.
A campanha de João Cotrim Figueiredo fez valer as redes sociais como espaço preferencial, onde fez constantes ataques aos meios de comunicação. Mesmo sem o nível de agressividade das críticas das campanhas do Chega, acusar em direto as televisões de parcialidade política, denunciando como parte do sistema, mostra paralelos com o estilo de André Ventura.
Usando o Presidente cessante como comparação, Cotrim Figueiredo também se apresentou com muito do eixo Lisboa-Cascais em si, mas com algumas diferenças. Mesmo com uma carreira política, o candidato apoiado pela Iniciativa Liberal distanciou-se do perfil de Marcelo Rebelo de Sousa ao afirmar-se como o candidato do bom currículo empresarial.
Se as últimas eleições legislativas mostraram à direita uma disputa a dois - PSD e Chega - , com a Iniciativa Liberal numa posição marginal, o forte terceiro lugar de Cotrim de Figueiredo mostra um xadrez mais complexo.
A GUERRILHA LIBERAL
O sucesso eleitoral da direita nos últimos anos surge na emergência de novas forças políticas, sempre capazes de chegar a novos eleitorados, e isso tem impedido que as maiorias conquistadas se concretizem num domínio absoluto. Sem a consolidação num bloco político uniforme, todos os partidos desse espaço sentem que há espaço para disputar.
Enquanto o país olha para a possibilidade de uma aliança PSD-Chega sem freios, os conflitos dentro de partidos vão escalando. Centrando-nos na Iniciativa Liberal, vários sinais de turbulência surgiram durante a campanha presidencial. A candidatura de João Cotrim Figueiredo parecia não colher fortes paixões nos altos escalões do partido. Carlos Guimarães Pinto, antigo líder, foi uma das quase ausências na campanha. Podemos suspeitar das ainda pouco esclarecidas denúncias de assédio dentro do partido como um dos motivos de distanciamento entre a direção e Cotrim de Figueiredo. A atual líder, Mariana Leitão, mostrou uma defesa tardia na defesa do seu candidato presidencial face às acusações de assédio.

O candidato apoiado pela Iniciativa Liberal consegue um forte resultado, penetrando em muito do espaço do PSD. Cotrim de Figueiredo deixou deliberadamente, durante alguns dias, pairar no ar a dúvida do que faria com o seu sucesso. Entre o comentariado, chegou-se a especular sobre uma entrada para o governo de Luís Montenegro. Tal como com Henrique Gouveia e Melo, também parece preferir apostar em si mesmo ao invés de no atual executivo Montenegro.
O tabu de Cotrim foi rapidamente desfeito e, ao chamar os meios de comunicação para anunciar a criação do “Movimento 2031”, proclama-se como o único dono dos 900 mil votos depositados no seu nome. Poucos dias depois do anúncio, Bernardo Blanco - diretor de campanha de Cotrim de Figueiredo e de fora das altas instâncias do partido - reforçava as desconfianças de atrito no seio do espaço da Iniciativa Liberal. Num programa televisivo sobre o futuro da direita, Blanco aludia à possibilidade da criação de um novo partido.
Mapear ao detalhe as diferentes alas e motivações dentro da disputa interna da Iniciativa Liberal é uma tarefa para a qual esta Newsletter não está qualificada. Ainda assim, a visibilidade destas disputas, combinada com as pouco transparentes mudanças de liderança dos últimos anos, sinalizam que não há um consenso dentro do partido sobre qual deve ser o seu papel. De um lado, a postura pública de Guimarães Pinto vai de encontro a uma estratégia focada em influenciar ideologicamente os restantes partidos, que acabe por se refletir em medidas aprovadas pelo PSD - uma tática que parece inspirada no papel do Bloco de Esquerda na viragem do milénio, quando este antigo líder disputava o espaço da blogosfera.
De um outro lado, Cotrim de Figueiredo, com uma votação muito acima do peso eleitoral do seu partido, ambiciona a liderança da direita, agregando em torno de si a Iniciativa Liberal e uma parte significativa do PSD. Embora não pareça ser a única opção em aberto para Cotrim de Figueiredo, o terceiro classificado deixa em aberto a hipótese de ser um dos principais agentes na construção de uma candidatura à direita em 2031.
A competição pelo espaço que ficou órfão com a saída de Pedro Passos Coelho da liderança do PSD em 2017 está acesa. O fim das presidenciais trouxe o pai original de volta à querela.
O CERCO PASSISTA
Tal como eleições anteriores, à direita, multiplicaram-se as invocações de quem é o verdadeiro herdeiro de Sá Carneiro (aqui e aqui). A este exercício têm-se juntando os apelos a Pedro Passos Coelho (aqui e aqui). A disputa destes legados fizeram que Miguel Morgado fizesse o impensável anos antes. Durante a campanha eleitoral, o comentador na SIC, uma espécie de porta-voz televisivo do passismo, criticava publicamente Aníbal Cavaco Silva. No balanço da campanha, Morgado responsabilizava a direção do PSD por ter apoiado um mau candidato e promovido uma completa desunião da direita. As críticas de Morgado juntam-se aos atos de Passos Coelho que dá agora provas de vida.
Depois de uma campanha presidencial em que se manteve em silêncio - talvez para não se incomodar ao responder quem seria o seu candidato preferencial, talvez por esperar um Ministério Público mais animado no pós-eleições - Passos desdobra-se em atos de apresentações de livros e conferências. Enquanto a lista de intervenções se acumula, logo nas primeiras ficou vincado um tom de críticas ao governo (aqui e aqui). O elogio imediato de Rui Rocha, antigo líder da Iniciativa Liberal, mostram o executivo de Luís Montenegro crescentemente sob cerco por quem necessitaria para uma governação duradoura. O sufoco tornou-se palpável ao ponto de forçar o primeiro-ministro a reagir às declarações de Passos Coelho.
O núcleo que rodeia Passos Coelho conseguiu que a ideia de um regresso sebastiânico voltasse ao espaço mediático - para já, consegue as alcunhas de «líder da oposição» e «primeiro-ministro sombra». A grande questão é como Passos Coelho conseguiria dar um golpe palaciano. Para Francisco Mendes da Silva, o cálculo passará pelo grande organizador de jogo da política nacional, que continua a sobrevoar Montenegro: o Ministério Público. Ainda assim, não devemos sobrestimar a capacidade de Passos Coelho chegar ao poder. No diagnóstico de Isaltino Morais, esse antigo líder do PSD tem-se «numa conta extraordinária» e que o grupo significativo que o apoiou enquanto primeiro-ministro já não está no PSD, tendo migrado para o Chega e para a Iniciativa Liberal.
Tal como os meandros das discussões dentro da Iniciativa Liberal, é difícil traçar os contornos da facção que aposta em Passos Coelho. A única conclusão que parece ser óbvia é não acreditar numa vida duradoura para o governo de Luís Montenegro. O outro combustível que parece animar esta facção é o crescente clima anti-costista, com que Montenegro tem tido dificuldades em capitalizar.
A VITÓRIA DO ANTICOSTISMO
Em 2016, o discurso catastrófico de Pedro Passos Coelho - que ficou conhecido como o “diabo” - falhou redondamente. O FMI não voltou ao país, o défice foi sendo reduzido enquanto as pensões e os salários da função pública eram recuperados. Passos Coelho acabava por sair pela porta pequena com uma pesada derrota autárquica. Quase uma década depois, o discurso do diabo era refinado com maior sucesso.
Nesta versão revista, os portugueses teriam vivido praticamente uma década de ilusionismo e propaganda por parte de António Costa. Uma intervenção de Passos Coelho em 2017, no contexto das tais autárquicas em que saia pesadamente derrotado, passava a ser a prova cabal do “socialismo de portas escancaradas” que viria a destruir o país. Esta fábula recebeu um novo acrescento recentemente - a Geringonça, pela mão de Catarina Martins, seria a grande responsável pelos danos das recentes cheias no Mondego, por ter travado a construção da barragem de Girabolhos em 2016. O diabo afinal tinha chegado, por outros meios, e Passos Coelho era o profeta. De novo, Miguel Morgado surge como uma peça essencial. Nas suas extensas horas de comentário televisivo, transformadas em curtos vídeos nas plataformas digitais, Morgado dedicou-se por vários anos a denunciar os supostos danos estruturais do terror costista.
Com mentiras, meias verdades e alguns pontos certos, o discurso que olha para os tempos de Costa como um desastre pegou. Sendo inegável que a vitória de António José Seguro resultou de várias divisões à direita, existem características do candidato que o tornaram na figura certa dentro do PS para capitalizar desta janela de oportunidade.
O sentimento de esgotamento público em relação ao costismo ajuda a explicar a decisão de Pedro Nuno Santos em sugerir o nome de Seguro como potencial candidato. O então Secretário Geral do PS, sem um passado amistoso com Seguro, talvez tenha sentido na pele as dificuldades de simbolizar a recente governação de Costa. Esse fardo em temas como a habitação e a imigração tornou-se mais do que evidente, como um artigo de opinião de 2025 veio a demonstrar. Com essa leitura, era preciso testar um nome que, ao contrário de Mário Centeno e Augusto Santos Silva, não fosse fortemente ligado aos anos Costa. O atual Presidente do Conselho Europeu acabava por ser, tal como Marcelo Rebelo de Sousa, um peso sombra nesta eleição.
A fórmula que levou Seguro à presidência foi a de criar uma conciliação que se tinha mostrado difícil desde o fim da era Costa. Seguro criou uma plataforma que combina o eleitoral satisfeito com as governações de António Costa, uma parte significativa dos eleitores à esquerda do PS e uma ala que tem votado à direita. Dependendo do ângulo de vista, a candidatura de Seguro representou algo bem distinto. Para os eleitores fiéis do PS, era o candidato que representava o continuísmo dos gloriosos anos de Costa. À sua esquerda, o único nome capaz de evitar uma segunda volta entre dois nomes de uma direita cada vez mais radicalizada. Para o campo da direita, expressado por intelectuais passistas, Seguro representava um PS distanciado de Sócrates e Costa, que trará a moderação necessária para fazer as “reformas estruturais” e largar fantasias de acordos com “a extrema esquerda”.
Com mais ou menos erros dos outros candidatos, Seguro foi eficaz a manter esta base, um monstro de Frankenstein político. A grande incógnita será até quando o Presidente da República eleito consegue mantê-la.
A confirmar-se um Presidente colado à direita, o apoio que tem à esquerda, numa repetição dos tempos em que Seguro era o líder da oposição, rapidamente evaporar-se-á. Olhando para quem é o núcleo duro do Presidente eleito, com Adalberto Campos Fernandes e Álvaro Beleza em destaque, só uma esquerda que engula muitos sapos irá manter o entusiasmo com o Palácio de Belém. Mesmo que dê a mão ao governo atual, ou a futuros executivos de direita, esse espaço político, com o tempo, irá encontrar figuras mais à sua medida - a lista atual de personagens para esse lugar é vasta e mais poderão tentar juntar-se. O apoio por parte do seu espaço tradicional também não é sólido. As divisões no PS para apoiar Seguro mostram que quando a maré de vitórias brilhantes se esbater o entusiasmo poderá seguir o mesmo caminho.
Se durante as semanas de campanha, os momentos silenciosos e sorrisos simpáticos foram suficientes, o exercício do mais alto cargo da República durante cinco anos não permitirá tal artifício.
PRESIDENTE DE UM ÚNICO MANDATO
A chegada de António Costa ao poder em 2015 assentou naquilo que foi considerado por vários a quebra de uma “tradição” que remontava ao 25 de Abril, a de o partido que ficava em primeiro nas legislativas ocupar a governação. Da mesma forma que os candidatos e os resultados desta eleição eram impensáveis no início de 2020, devemos colocar em causa uma outras «tradições» eleitorais.
Em maio, com o PS a ficar em segundo lugar nas legislativas, o duopólio PSD-PS deixou de ser um facto. Há meses, chegou-se a avistar um colapso do PS a nível das eleições autárquicas, que o remetesse a uma posição marginal. Enquanto essa ficou por realizar, os 11% de Luís Marques Mendes colocam os olhos sobre o PSD. Nas eleições de 2031, a reeleição do Presidente da República para um segundo mandato pode somar-se às tradições quebradas. A única certeza parece ser a de não vivermos outro «marasmo» como o mencionado por João Cancela.
Por um lado, a instabilidade política a que se assiste no contexto internacional terá consequências diretas para o mandato do próximo presidente, que será ampliada pelos efeitos duradouros da presidência irresponsável por parte de Marcelo Rebelo de Sousa. Por outro, a vitória de António José Seguro, deixa no ar a possibilidade de que a direita, dominante na primeira volta, retome a presidência num cenário de maior convergência.
Muitos dos que fazem parte da plataforma heterogénea de apoio a Seguro - como o caso dos passistas - não se sentem na obrigação de manter a sua fidelidade durante cinco anos. As movimentações políticas dos ex-candidatos, imediatamente depois da eleição, apontam nessa direção. No cenário em que Luís Montenegro consiga sustentar a sua posição, ou naquele em que Pedro Passos Coelho esteja a sobrestimar as suas possibilidades de uma entrada limpa para a frente do PSD, o líder do país durante os tempos da intervenção da Troika poderá olhar para o Palácio de Belém com novos olhos.
Se a possibilidade de um presidente de um mandato se tornar um consenso no comentariado, o antigo líder do PSD rapidamente irá lembrar-se de argumentos que possa desferir contra o novo Presidente - existirá melhor culpado para o facto de as “reformas estruturais” não terem avançado durante a Troika? Os elogios que o antigo líder do PSD tem vindo a acumular ao longo de anos ser-lhe-ão úteis nesse cenário. Juntando a isso, se Passos Coelho - já com 61 anos - tiver real interesse na Presidência da República, terá pouco interesse em esperar por 2036.
No cenário em que Passos Coelho se concilia como uma alternativa para Belém, não podemos descartar a candidatura de outro ex-primeiro-ministro, que substituiu Passos Coelho em São Bento e Seguro no largo do Rato. Da mesma forma que Passos Coelho saiu do poder como um líder impopular e volta hoje a sonhar com ser líder do país sob uma direita unificada, o anti-costismo hegemónico também terá o seu prazo de validade. A gestão do atual governo na Tempestade Kristin, num mundo de instabilidade crescente, mostra que os portugueses podem passar a ter saudades da gestão de crises do executivo de António Costa. O ilusionista pouco reformista pode estar a algumas tragédias de se tornar o grande estadista, um farol de estabilidade na Era da Policrise.
Ainda antes de tomar posse, a onda de notícias que denunciava um despesismo por Seguro manter a sua residência nas Caldas da Rainha mostrou o que poderá ser caminho difícil sobre o qual a sua presidência caminhará. Sé há alguma coisa que esta eleição demonstra é que o futuro é incerto e que os candidatos de 2031 podem ser completas surpresas aos olhos de 2026. Apesar de todas as previsões acima, como esta eleição demonstra, não falta espaço para cenários «estapafúrdios».
Pensar, escrever, editar e publicar exige tempo. Nós, os Pijamas, fazemo-lo à margem das nossas rotinas laborais, numa lógica de participação no espaço público - sobretudo, para desconstruir a narrativa do economês dominante e refletir sobre alternativas para a nossa vida coletiva. Se gostaste do que leste, subscreve e partilha a nossa newsletter e os nossos artigos. Esse é o maior apoio que nos podes dar.








